Do
espanto à afirmação
Uma
visita inesperada
Um dedo que vale um milhão
Araponga… Pois com certeza!
Geração
"rasca"
Uma experiência terceiro mundista
Uma
firme certeza
Quando se tem a Fé como Norte…
Objectivos bem determinados
O
preço do sucesso
Normalidade
Um
jeito especial
Uma
palavra de solidariedade
Uma palavra de
coragem
Uma
experiência de reabilitação
Uma
pérola em papel de embrulho
Quando se encontra o que se procura
Danças e Andanças
Um passe de magia
Da refilice à
maturidade
O preço do sucesso
Este meu “vício” de escrever algumas das histórias de sucesso dos formandos que
têm passado ao longo dos anos por esta Instituição e, que têm culminado com uma
colocação no mercado normal de trabalho, encontra-se de há muito enraizado no
meu espírito, mais pelo sabor das vitórias alheias de que propriamente pelo
gosto da escrita. Destas histórias, certamente que algumas me têm dado mais
“gozo” do que outras. Quando refiro, “mais gozo”, não estou a privilegiar uns
casos em detrimento de outros. Acontece, tão só, que se deve apenas às
circunstâncias.
Hoje, vou debruçar-me sobre uma situação que me dá, ao mesmo tempo, o maior dos
“gozos” e simultaneamente, a maior das tristezas. Espero, sinceramente, que na
minha actividade de formador, nunca mais seja confrontado com uma situação como
a que vou abordar.
Inserido num dos grupos de formandos mais heterogéneos que já alguma vez me
apareceu, um elemento se destacava pela sua irrequietude, nada condizente com o
seu físico corpulento. A sua timidez inicial foi dando lugar, lentamente, a uma
extroversão muito mais condizente com a sua condição de pessoa avantajada.
Prestável para com todos, sempre pronto a ajudar quem precisasse de um olhinho
para ir ao café, ou a qualquer lugar, depois da formação. Tinha por hábito
privilegiar o interesse alheio em detrimento do próprio. Usava com mestria os
bons resíduos visuais que ainda tinha, mas tinha alguma dificuldade em conviver
com a surdez que, também o começava a afectar. Nem a prótese auditiva, a que
carinhosamente, chamava “rádinho” o ajudava. Costumava, no entanto, dizer que
era apenas mais um acidente de percurso. Falava com alguma saudade dos tempos em
que se sentava ao volante do carro, para ir com os amigos dar uma voltinha.
Agora dependia da boa vontade do irmão e na ausência deste, do transporte
colectivo. Tinha, a meu ver, um jeito muito especial de dar a volta às situações
complicadas e, acima de tudo era uma pessoa que amava a vida, apesar de todos os
seus condicionalismos.
Encarava a formação profissional, tão só, como um meio para recuperar a
independência económica perdida com o problema dos olhos. Não revelava grandes
aptidões, para as coisas teóricas. Quando confrontado com o baixo rendimento
obtido com as mesmas, respondia: “… se gostasse deste tipo de coisas, não tinha
abandonado a escola. Mas nas matérias práticas, aí correspondo ao exigido…”. Era
bem verdade. Lenta mas firmemente, começava a entrar no mundo da informática.
Foi uma evolução sempre em crescendo, que terminou com a aquisição de um
computador , no qual investiu as poucas economias que ainda lhe restavam. Tinha,
sem se aperceber disso, dado um grande salto qualitativo. Agora, tomava a
iniciativa de questionar acerca das matérias, em vez de ser questionado.
Alcançado o 2º ano da formação, começava a pensar que era chegado o momento de
dar novamente o salto para o mercado de trabalho. Não dava ouvidos nem a
formadores, nem a colegas que, lhe diziam para terminar o curso, efectuar um
estágio e só depois pensar num trabalho. Comprava o jornal, lia avidamente os
anúncios. Respondia à maioria deles, onde achasse que a sua limitação de visão
não era obstáculo. As frustrações com as “negas” não o abalavam, constituíam,
antes pelo contrário, um incentivo. Até que o grande dia chegou. Feliz entrou
uma manhã na minha sala, pedindo-me uns momentos. Precisava de falar comigo.
Tinha boas notícias, muito boas notícias!
O contentamento e a emoção impediam-no de ser objectivo. Falava
atabalhoadamente, metendo os pés pelas mãos e as mãos pelos pés. Vencida a
mesma, conseguiu dizer-me que tinha aparecido uma oportunidade. Não seria o que
tinha sonhado, mas era uma oportunidade de trabalho e não a iria perder. Sem me
deixar questionar, continuou. Era numa fábrica de reciclagem de produtos fora de
prazo, lá para as bandas do Lavradio. Até nisso tinha tido sorte, pois ficava
perto de casa. Já tinha falado com o encarregado e este tinha-lhe dado
esperanças. Faltava apenas falar com o patrão…
Ultrapassados todos os obstáculos, o nosso Palmela firmou um contrato com a
Empresa em causa e, começou de imediato a laborar. A vontade de trabalhar tinha
vencido todos os obstáculos. Era na verdade uma vitória da perseverança!
O contacto com o Paulo Palmela continuava. Não tinha deixado de frequentar a
Instituição que lhe tinha permitido transformar um sonho em realidade. Quando
estava de folga lá vinha visitar os funcionários, os formadores e os colegas.
Era um cordão umbilical que parecia não querer ser cortado. Tudo se encaminhava
para mais um final feliz, mais uma história de sucesso a juntar a muitas outras
que já existiam na vida da A.P.E.D.V.
Se abordarmos a situação apenas pelo lado da colocação, era na verdade mais uma
história de sucesso, mas como não a podemos desinserir do contexto geral, o
sucesso transformou-se em tragédia. De facto, no ano de 2001 houve uma grande
explosão na fábrica onde o Palmela trabalhava e, de entre os vários mortos
resultantes dessa mesma explosão o Paulo Palmela foi um deles. Pagou com a
própria vida a sua grande vontade de voltar ao mundo do trabalho. De ser, acima
de tudo, um cidadão de corpo inteiro.
Actualmente o Palmela descansa no cemitério de Vila Chã no Lavradio. Pela minha
parte ao escrever estas pequenas linhas, presto-lhe a homenagem que considero
merecida. Que fique, para quem ler este texto, o exemplo de quem tanto amou a
vida, independentemente das “partidas” que a mesma lhe pregou.
Bem-haja pelos ensinamentos.
Lisboa, 16 de Setembro de 2001
António Pedro Neves Costa

Normalidade
Quando cheguei a esta casa, confesso que tive algumas dificuldades de
integração, ou melhor, de adaptação. Era realmente para mim um mundo totalmente
novo. Novo, na medida em que deparei com cegos a funcionarem com a maior das
normalidades. Já sabia, por experiência própria, que tal era possível, mas em
tão grande número…Isto para não falar do facto de os dirigentes da mesma serem
maioritariamente cegos; desde o Director até aos responsáveis de cada um dos
cursos, passando pelos Técnicos superiores, etc. O que mais me ia surpreendendo
era o facto de tudo funcionar bem. A Instituição não ficava a dever nada, em
termos organizacionais, a qualquer Serviço ou empresa constituída por
normo-visuais.
Não vou falar no Director, pois acerca deste já tinha informações, anteriores ao
meu ingresso na Instituição, do que era capaz e do seu percurso profissional.
Portanto, para mim não foi surpresa. Houve no entanto outros que, para além de
me surpreenderem, me influenciaram de forma tão positiva que, contribuíram para
aquilo que hoje sou, quer no âmbito pessoal, quer no profissional.
Com o desenrolar do tempo fui-me integrando e tomando contacto, mais amiúde, com
determinadas pessoas. Havia, no entanto, uma delas que tinha sempre algum tempo
disponível para ouvir, emitir uma opinião, apontar caminhos sem, no entanto,
nunca influenciar. Ouvinte por excelência, mas interventora quando necessário.
Neste particular era e ainda é, intransigente. Nunca me apercebi de alguma vez
ter deixado de tomar uma posição por esta lhe poder trazer incómodos. De uma
humanidade estrema, só não fazia ou resolvia o que lhe era de todo impossível.
Boa conversadora, podia-se abordar qualquer assunto que, mesmo quando não
estivesse a vontade, discorria acerca do mesmo. A pessoa em causa, no âmbito
pessoal, pode-se, a meu ver, definir tão somente como: elegante no trajar, firme
no andar e fina no pensar.
No campo profissional revelou-se e revela-se, competente, zelosa e dedicada a
uma causa que abraçou: a integração sócio-profissional dos deficientes visuais.
O meu obrigado à Carminda Pereira, por me ter ajudado a integrar neste mundo que
é A.P.E.D.V.
Estas pequenas mas sinceras linhas, só pecam por tardias.
Lisboa, 23 de Julho de 2003
ANTÓNIO Pedro Neves COSTA

Um jeito especial
Após alguns anos de trabalho nesta área e, depois de nos terem passado pelas
"mãos" um número considerável de formandos, julgamos, se bem que indevidamente,
que já dificilmente seremos surpreendidos com alguma "coisa".
Mas surge um novo ano de formação, um novo grupo de formandos e, eis que uma
pequena pontinha de expectativa se começa a desenvolver em nós e de mansinho
muito de mansinho se apodera de nós, quase se transformando num turbilhão
dificilmente controlável.
Foi o que aconteceu no ano de 2002, quando deparei com um grupo, aparentemente
cheio de normalidade, mas que com o desenrolar do tempo foi desabrochando com as
suas peculiaridades específicas, como as flores que abrem as suas pétalas quando
os primeiros raios de sol as beijam pela manhã.
De entre eles, destaco nestas linhas uma moça que apesar de ter uma licenciatura
quase terminada, não queria fazer uso da mesma como profissão. Queria ser apenas
telefonista e, não havia quem a demovesse de tal. Havemos de convir, que nos
dias que correm, esta tomada de posição não é nada comum. Mas, como o objectivo
desta casa é formar e não decidir por… Deitámos mãos à obra.
Oriunda de uma família equilibrada, socialmente bem integrada e sem dificuldades
de aprendizagem, a formação ia decorrendo sem problemas. Havia apenas uma
pequena coisa que, com o desenrolar do tempo ia ensombrando o espírito da nossa
formanda. O futuro! … O que seria no após estágio? Seria que haveria mesmo
estágio? As "coisas" começavam a ficar "negras" para os ditos normais, quanto
mais para uma cega congénita… esta ideia atormentava a nossa formanda.
Constantemente interrogava-se e interrogava-nos acerca.
Findo a primeira parte do curso, efectuado nas nossas instalações, com muito bom
aproveitamento. Destaque-se aqui o bom desempenho na aprendizagem das técnicas
relacionadas com a central telefónica e na área informática. Faltava agora
efectuar o tão desejado estágio, sem o qual não estaria completo o curso. Com o
habitual empenho das pessoas, que por parte da Associação, têm como uma das suas
missões procurar um estágio, adequado a cada caso, este finalmente lá apareceu.
É importante destacar aqui, a boa vontade dos responsáveis da Empresa de
Transportes Barraqueiro, que prontamente abriram as suas portas para que a Zélia
Diogo, efectua-se o mesmo.
Ironia do destino ou não, nos dias que correm, não podemos pensar a profissão de
telefonista como ela era pensada outrora. Um telefonista, hoje em dia, tem que
exercer a sua função cumulativamente com outras actividades e, dentro deste
princípio a Zélia teve que se fazer acompanhar de um computador , gentilmente
cedido para tal pela ElectroSertec, para poder desempenhar as funções
cumulativas que lhe foram distribuídas.
Actualmente, a Zélia é funcionária da Empresa de Transportes Barraqueiro
desempenhando a função de telefonista cumulativamente com outras funções para as
quais a informática é indispensável. Para quem a princípio, queria ser apenas e
exclusivamente telefonista…
Lisboa, 5 De Março de 2003
António Pedro Neves Costa

Uma palavra de solidariedade
A
primeira vez que ouvi falar do César, foi quando me chamaram junto do serviço
social desta casa , para me comunicarem de que tinha chegado uma carta dos
Açores, na qual se fazia apelo à A.P.E.D.V., no sentido de proporcionar ao
César, o apoio que necessitava para adquirir conhecimentos em informática e em
Braille, que já lhe tinham sido negados por outras instituições.
A carta, referia alguns dados da situação sócio-familiar do César. O panorama
não era nada animador. A condição de multi-deficiente, agravada com o
aparecimento da cegueira, indiciava muito poucas probabilidades de êxito, mas a
vontade de ajudar, foi maior, sobrepôs-se a tudo e o César foi convidado a vir
até Lisboa, para frequentar o curso de informática , que tanto desejava, na
nossa instituição.
Chegado a Lisboa, foi alojado no Lar Militar. Pôs-se então o problema de haver
necessidade de lhe ministrar as aulas no próprio Lar Militar, visto as nossas
instalações não estarem preparadas para receberem deficientes em cadeira de
rodas.
Acompanhei o monitor que devia assistir ao César, na primeira visita, e o quadro
que se nos deparou foi ainda mais pessimista do que poderíamos imaginar.
Para além das deficiências de ordem física e da cegueira, o César apresentava
uma enorme dificuldade em falar. A articulação das palavras fazia-se com muito
custo, o que limitava a comunicação de e para com ele.
Após a nossa primeira conversa, ficámos a saber que não tinha frequentado a
escola e, o que sabia fora ensinado pelo avô, com muito carinho. Esta
circunstância aumentava as nossas dificuldades no ensino do César.
Passados estes meses, o nosso amigo domina em termos informáticos, um sistema
operativo, o (MS/DOS), e um processador de texto o (WORDSTAR), graças à ajuda de
um sintetizador de voz, o Apollo.
Neste momento, o César, já pode regressar aos Açores, e ocupar o seu tempo, a
escrever os seus poemas, e contribuir à sua maneira para o engrandecimento da
sua comunidade.
O texto «Uma palavra de coragem», foi escrito pelo César, e encontra-se tal qual
o escreveu. Não o alteramos em nada, é a nossa melhor homenagem, à coragem de um
homem, que apesar de ter sido tão marcado pela vida, ainda encontra coragem para
lutar e seguir em frente.
Bem haja!
António Pedro Neves Costa
Lisboa, 11 de Junho de 1992

UMA PALAVRA DE CORAGEM
Sou um deficiente físico não me considero menos humano do que se pudesse andar
com as pernas, porque isso agravaria mais os problemas e/ou obstáculos com a
sociedade que me rodeia. Desde bastante novo, os médicos dizem que podia ter
meses ou dias, fui atingido por uma paralisia cerebral que me afectou os membros
superiores e inferiores que me forçou a viver numa cadeira de rodas.
Há dois anos, para experimentar a minha paciência, a vida pôs-me em cima das
costas mais um fardo. Uma doença pouco conhecida chamada a glaucoma que fez com
que o meu mundo se transforma-se completamente, ficando invisual da minha vista
esquerda, já que a direita tive de a tirar por causa de um tumor, mas fiquei a
fazer a vida normal, que era ler e escrever e na altura em que ficando sem ver
estava a tirar o curso de contabilidade por correspondência, que por acaso
estava a gostar imenso, vi-me desesperado por não ter como ocupar o tempo, e
tive muitas horas de verdadeira solidão, pois a única companhia que tinha era a
rádio. A minha família fazia os possíveis para não me sentir tão só mas a vida
tinha de continuar na sua rotina normal para podermos viver. Agora passados 3
meses já volto a ter uma nova perspectiva para o futuro, regressou o optimismo e
a esperança de me sentir pessoa válida perante a sociedade em que vivo. Tenho a
consciência de que vou continuar a ter grandes dificuldades e que a sociedade
moderna, materialista e por vezes sem coração, embora se julgue humana, mas
somente pensa em si mesma.
É virando a cara aos problemas que se consegue resolver, ficar a lamentar e a
chorar não se resolve nada. viva a vida!
César Enes Xavier
Lisboa, 28 de Abril de 1992.

Uma palavra de solidariedade (2)
Já nos Açores e munido do material informático necessário, o César passou a
colaborar regularmente, com escritos em vários periódicos.
Se de início isto o satisfez, com o decorrer do tempo começou a perceber que
podia ir muito mais longe. Começou então a sua luta para alcançar um posto de
trabalho.
Depois de muito ouvir a palavra não, encontrou resposta para os seus Anseios na
Escola Secundária de São Jorge, que lhe deu a oportunidade de trabalhar na sua
secretaria.
Entre a primeira estada do César em Lisboa e, a colocação na Secretaria da
Escola, mediou o tempo suficiente para que o processador de texto aprendido por
ele, ficasse ultrapassado.
Levantou-se novamente a necessidade do César vir até junto da nossa Instituição,
para aprender a trabalhar com um outro processador de texto, mais actualizado.
De novo nos Açores, lá está ele a desenvolver o seu trabalho na Secretaria da
Escola, mostrando ao mundo como é possível, quando devidamente apoiado, um ser
humano ultrapassar as adversidades que a vida lhe vai colocando.
António Pedro Neves Costa
Lisboa, 17 de Maio de 1999

Uma experiência de reabilitação
Estávamos em Dezembro de 1973. Apesar de ser verão, Báruè apresentava
temperaturas amenas, com a excepção do sol do meio-dia. As elevações introduzem
bastante frescura nesta região e definem condições óptimas de vida e de prática
da agricultura. Foi aqui que tudo se passou. Tinha nove anos de idade e, como é
normal em África, a minha inserção no tecido produtivo doméstico havia já
começado. Na companhia dos meus seis irmãos, tinha começado a frequência da
escolaridade obrigatória, fazer parte do grupo de irmãos mais velhos no
pastoreio do gado, seguir de perto as actividades agrícolas e executar as
compatíveis com a minha idade, além de outras obrigações próprias da idade. Os
tempos livres eram gastos tomando parte nas diversas manifestações de grupos de
idade. Jogos, caçar pássaros com fisgas, apreciar animais no parque natural à
volta, eram algumas das nossas diversas e preferidas brincadeiras.
Uma febre aparentemente inofensiva comunicou o fim de tudo. Eu e o meu irmão
mais novo caímos doentes e foi-nos diagnosticado o sarampo. Recebemos o mesmo
tratamento, primeiro ministrado pela família, depois pelo hospital que ficava há
mais de cem quilómetros do local. A verdade é que o meu irmão saiu ileso do
acontecimento e eu fui condenado à perda da visão com uma rapidez angustiante.
No espaço de uma semana o mundo tomava uma só cor para mim: escuro. Teria sido
menos grave para mim se esta tivesse sido a única consequência. A verdade é que
vi-me forçado a abandonar todas as actividades quotidianas e deixar de ter a
companhia dos meus amigos mais chegados. Os meus pais ganharam o medo de me
deixar solto e passaram a destacar um irmão para estar em minha companhia, mesmo
nas manifestações mais elementares por outras palavras, sentimentos de
inutilidade, peso morto e inferioridade social, apoderaram-se de mim. A minha
família nunca tinha lidado com qualquer experiência de deficientes. Confesso que
se notou neles um sentimento de choque e uma profunda desorientação. Não sabiam
o que fazer de mim. Para eles eu era um caso perdido. É por esta razão que eu
sou defensor de uma reabilitação psicológica a deficientes. Não basta
ensinar-lhes a ler o Braille, a manejar um aparelho telefónico, tirar uma
licenciatura. É preciso restituir-lhes a confiança em si próprios, a dignidade e
o reencontro consigo mesmo e com os outros.
O meu engresso no então Instituto Assis Milton (Beira/Moçambique) foi uma luz no
túnel. Percebi que podia reorientar os meus sonhos e depositar esperanças no
futuro. Ali aprendemos muitas coisas. Além da escolaridade obrigatória, tivemos
noções de música, trabalhos manuais, aulas de locomoção, actividades da vida
diária, dactilografia, p.b.x. etc. A idade, o empenho e a dedicação de muitos,
em especial do Dr. Assis Milton, tornaram realidade o que a principio parecia
impossível. Um bom trabalho de base permitiu encarar com êxito a experiência de
ensino integrado de que eu e dois colegas meus fomos precursores em Moçambique.
Uma experiência tão valiosa que culminou com o nosso engresso no curso de
sociologia da Universidade Nova de Lisboa, aproveitando bolsas de estudo que nos
foram cedidas pelo governo português. Presentemente encontro-me a frequentar o
mestrado em Estudos Africanos no I.S.C.T.E. e o curso de informática da
A.P.E.D.V. em Chelas/Lisboa.
Chegados a este nível, vale a pena olhar o passado e constatar os principais
ensinamentos havidos, no âmbito da reabilitação. Não há dúvidas de que a
situação dos cegos nos últimos anos, pelo menos do ponto de vista de acesso à
cultura, melhorou significativamente. O prodígio da tecnologia de ponta já dá
algumas respostas às preocupações dos cegos, neste âmbito. Contudo, penso que
ainda é necessário um combate enérgico contra o procedimento da sociedade que
reduz o cego a um sujeito de necessidades e não de capacidades. Os cegos são
indivíduos dotados de sonhos, ambições e desejo de auto-realização,
perfeitamente concretizáveis se a sociedade estivesse disposta a colaborar. O
que se exige ao homem, hoje, é a capacidade de pensar e equacionar os problemas,
porque a resolução pode ser uma questão meramente técnica. Nisto estamos em pé
de igualdade. Isto só é possível apostando numa formação cultural e profissional
muito séria. Assim, é urgente rever o estado das nossas instituições de
enquadramento social, cultural e profissional, que, normalmente, se fecham
dentro de si próprias, sem qualquer interacção com o mundo exterior, favorecendo
a constituição de autênticos guetos. Por outro, o ensino integrado tem de ser
repensado. As pessoas batem-se por si próprias, sem qualquer apoio
institucional. É preciso depender da compreensão dos colegas, muitas vezes
ocupados na gestão das suas vidas. É verdade que já se fizeram alguns progressos
nesta matéria, particularmente ao nível da legislação. Só que, quase sempre, ela
é do desconhecimento total tanto das instituições em causa como do próprio
interessado. O resultado são quadros portadores de deficiência formados com
deficiências.
Outro aspecto não menos importante é o de reduzir os deficientes,
particularmente os cegos, a funções clássicas: Telefonistas, professores, etc.
Os cegos podem fazer muito mais. O que falta é o apoio institucional para a
identificação e análise das funções, capazes de serem executadas por estes. Não
se trata de um acto de caridade pública; trata-se de criar condições para o
aproveitamento de recursos humanos disponíveis num país, em que os cegos são
parte integrante. Mas nada disto é possível com a actual indiferença da
sociedade, em que se continua a pensar que ser deficiente é coisa que só
acontece aos outros. Esquecem-se de que todos aqueles que, logo pela manhã,
atravessam ruas, andam de automóveis, lidam com trabalhos de risco, são
potenciais deficientes. Criar condições para os existentes é prevenir o seu
futuro ou de um familiar próximo.
José Diquissone Tole
Actualmente, é Director de serviços de um Departamento do Ministério da Acção
Social na Beira/Moçambique e, dá aulas na Escola de Magistério Primário da
Beira.
É co-fundador e Presidente da Associação de Cegos de Moçambique.

Uma pérola em papel de embrulho!
Recuando um pouco no tempo, lembro-me do meu amigo escondido atrás das suas
grossas lentes, com o seu ar pachorrento, irreverência no andar, resposta pronta
e mordaz na ponta da língua. Destoava por entre os colegas possuídos de uma
grande «normalidade». Nas aulas de teoria informática, matava o tédio com
grandes divagações introspectivas, ou seja, tirava umas belas sonecas, ou dava
largas à sua imaginação rabiscando com uma ponta de feltro num papel. Nas aulas
de português, surpreendia com os seus conhecimentos em literatura.
Olhava à sua volta, observava mas em silêncio, ia-se inteirando das normas, dos
processos, dos objectivos, assim como da conduta dos professores e colegas.
Respondia com solicitude aos pedidos dos outros formandos, para ir ao café, ao
banco, etc.
Figura de citadino castiço, meio aldeão, meio marítimo. Aldeão porque não
enjeitava as suas origens, lá para as bandas de Montejunto, onde ainda gosta de
regressar de quando em vez. Marítimo porque acentara arraiais junto de uma
praia, lá para as bandas do Barreiro. Conhece a preceito os nomes dos apetrechos
da pesca, e algumas das técnicas mais usadas na pesca artesanal. Dava gosto
vê-lo a divagar, contando histórias da faina marítima, e dos pescadores do Tejo,
mas os olhos entristeciam-se quando falava com nostalgia das canoas e fragatas,
que deixaram de sulcar o rio para sempre. Eram momentos em que deixava
transparecer a sua oculta sensibilidade.
Neblinas, assim lhe chamam alguns amigos, é pequeno na estatura, mas grande na
generosidade.
Já tinha tido algumas experiências de trabalho, num armazém de uma corticeira, e
na construção civil, experiências que não tinham sido lá muito gratificantes,
mas donde tirou pelo menos algumas lições que lhe são hoje em dia bem úteis.
Andava um pouco perdido, pisando caminhos escusos, mas lutando para encontrar
rumo certo.
Mas como a vida não espera, e alguns tostões na algibeira fazem sempre jeito, ia
ganhando algum dinheiro vendendo desenhos que fazia com gosto, e dava uma
mãozinha a um amigo que se dedicava à montagem de equipamentos para espectáculos
musicais.
Na instituição, lá continuava com a informática às voltas, a aplicação prática
da mesma não ia nada mal. Procurava ocupar os seus tempos mortos na feitura de
alguns trabalhos, o seu ar pachorrento não condizia com a sua dinâmica de
trabalho, não gostava de estar parado! e quando o estava, ocupava-se em
destabilizar o sistema.
Mal sabia ele, de que com as brincadeiras que ía fazendo com o computador,
começava a garantir o futuro. De brincadeira em brincadeira, tornou-se lenta mas
seguramente um eficaz operador de computadores.
Hoje em dia o Francisco Matias, pois é dele que venho falando, é um dos
funcionários da A.P.E.D.V., e desenvolve o seu trabalho no sector de produção de
material. Este sector é de vital importância para o bom sucesso dos nossos
cursos. Funcionário cumpridor e dedicado, ainda não deixou de nos surpreender,
Tirou recentemente de dentro do seu envolcro de papel de embrulho, como se de um
passe de magia se tratasse, um texto com um conteúdo magnífico, a Espiga ganhou
mais um imaginativo colaborador.
António Pedro Neves Costa

QUANDO SE ENCONTRA O QUE SE
PROCURA
Talvez possa parecer um tanto despropositado, para o leitor menos familiarizado
com estas coisas, aquilo que vamos dizer;
Porém, dadas as condicionantes do País em que vivemos, os factos que, em seguida
contaremos, reflectem bem a situação a que os deficientes estão votados:
Há cerca de 14 anos, exercemos a função de Professor de Filosofia, numa das
muitas Escolas Secundárias portuguesas. Por esse motivo, temos o dever de
proceder a uma constante actualização dos nossos conhecimentos.
Porém, como poderá isso ser possível, quando a informação nos chega em
catadupas, sem, por uma via directa, a podermos ler?
As tecnologias foram evoluindo, os livros cada vez se mantém em uso por menos
tempo e os alunos, na sua vontade de saber, cada dia exigem mais de quem os
ensina.
Assim, numa tentativa de nunca nos apresentarmos como sendo diferentes dos
nossos restantes colegas de profissão, fomos resolvendo os nossos problemas,
recorrendo aos olhos daqueles que, gentilmente ou pagando-lhes, nos iam fazendo
o favor de nos lerem todos os documentos de que íamos sentindo necessidade.
Mas esta situação não poderia manter-se por mais tempo, pois a Reforma do
Ensino, que se vai dando em Portugal, não se compadece com o artesanato do
trabalho que os nossos amigos mais próximos estavam a ter, por causa da nossa
falta de materiais.
Um dia, ao abrirmos a caixa do correio, para nosso espanto, deparámos com uma
carta escrita em Braille...
Mas que queria aquilo dizer? Não estávamos habituados a receber informações a
que nos fosse possível um acesso directo, sem quaisquer intermediários; por
isso, sem mais demoras, abrimos a carta e procedemos â sua leitura:
Pela primeira vez, na nossa residência, recebemos uma informação tecnológica,
que nos poderia ser de enorme utilidade, pois, desde que convenientemente
aproveitada, estaria nas condições de nos ajudar naquilo que tanta falta nos
estava a fazer.
Tratava-se de um pequeno aparelho que, associado a um computador, nos faria a
leitura do ecrã.
Não perdemos tempo, era preciso um contacto com a instituição que, sem que
saibamos bem como, nos enviara tão preciosa informação.
Ao digitarmos os números do telefone, quase nos parecia mentira que aquela
pequena maravilha fosse uma coisa real, pois, de um momento para o outro, um
mundo novo se nos iria abrir.
Do outro lado da linha telefónica, para nosso agrado, encontrámos um velho
conhecido, que havia tanto tempo já não víamos.
Foi tudo bastante mais fácil do que tínhamos imaginado: A APEDV, Instituição de
que este nosso amigo é responsável, tinha a possibilidade de nos ministrar a
formação de que necessitávamos, para que o mundo se abrisse aos nossos pés.
Talvez não seja preciso dizer mais nada: os factos confirmam a verdade do que
estamos a afirmar: neste momento, cerca de quinze dias após os acontecimentos
que descrevemos, graças à incansável e impreterível ajuda do A. Pedro - um dos
competentes monitores desta Instituição - a supracitada máquina é já o
instrumento de trabalho de que nos estamos a servir para a elaboração deste
texto.
Para terminar, dado que não queremos abusar da paciência dos leitores,
gostaríamos de deixar aqui um apelo sincero:
Não bastam as palavras, dizendo que os deficientes se encontram integrados, é
preciso dar-lhes os meios necessários para que a sua total socialização não seja
um fardo, quer para eles próprios, quer para os que com eles privam
Para que isto seja uma realidade prática, a formação profissional não pode ser
simples coisa de papel; as instituições que a ela se dedicam têm que possuir os
meios indispensáveis, para que o seu trabalho seja eficaz e possa obter
resultados verdadeiramente compensadores.
Angelo Miguel Abrantes

Danças e Andanças
Quantas vezes o simples facto de nascer nos marca de forma tão determinante, que
mais parece que alguma fada madrinha, ou quem sabe, alguma bruxa má, nos
pré-destinou o futuro de forma irremediável.
O caso de que me proponho falar hoje, ajusta-se perfeitamente ao atrás dito.
Nascera numa família onde já havia um primeiro filho. Agora era desejada uma
menina e, assim sucedeu. Nasceu forte, não aparentava deficiência alguma, tudo
parecia correr dentro da mais completa normalidade, até que, com o decorrer do
tempo se começou a notar que aquela criança tinha alguma deficiência, ao nível
da visão.
Foram tomadas as medidas julgadas necessárias para atalhar ao mal. De médico em
médico, foram-se esgotando as esperanças de poder resolver o problema de visão
da criança. Tinha que viver habituando-se a conviver com a deficiência.
Foi crescendo, sem problemas de maior. Podia brincar à vontade, a deficiência
não parecia ser limitativa. Os primeiros problemas só apareceram quando chegou à
idade escolar. a sua visão não permitia uma leitura «normal», havia a
necessidade de recorrer a material especial, ou seja, caracteres ampliados. Como
acontecia naquele tempo e, ainda em algumas escolas nos nossos dias, o material
não existia, ou era insuficiente. Isto trazia-lhe graves problemas na
aprendizagem e grandes dificuldades no acompanhamento do ritmo de trabalho dos
colegas.
Por outro lado os professores não estavam nada sensibilizados, para a presença
de uma criança com problemas daquela natureza. O problema repetiu-se no ciclo e
só no secundário apareceram os primeiros apoios, se bem que insuficientes, por
interferência de uma cunhada que era professora no ensino secundário. O apoio
não era o ideal, mas já era alguma coisa e podia-se notar no rendimento da
jovem.
Acabado o 12º ano, pôs-se a necessidade de arranjar um posto de trabalho.
Surgiram então novas dificuldades. O facto de ter uma visão reduzida, não lhe
permitia arranjar uma colocação compatível com as suas habilitações. Como não
desistia perante as primeiras dificuldades, conseguiu um emprego num consultório
médico, se bem que temporário.
Mas a vontade de continuar a estudar não a abandonava, e com o dinheiro que ia
ganhando no consultório, inscreveu-se num curso de secretariado, no Instituto de
Novas Profissões.
Aqui as dificuldades voltaram. Apesar de ser um curso pago, os apoios também não
existiam, o que a levaram apesar de ter boas notas nas disciplinas teóricas, a
abandonar o curso com as cadeiras de dactilografia por fazer.
A revolta tinha-se instalado definitivamente. Não conseguia compreender o porquê
de tudo aquilo, obstáculos atrás de obstáculos, só pelo facto de ter uma visão
reduzida.
Tudo isto vendo apenas mal, se fosse cega não sei o que seria? Pensava ela de si
para si mesma.
Terminado o emprego temporário, no consultório médico, deitou mão a tudo o que
lhe apareceu, até que ouviu falar nuns apoios que o Instituto de Emprego, dava
aos deficientes visuais.
Utilizando os apoios concedidos pelo Instituto de emprego, adquiriu e explorou
um quiosque, lá para as bandas de Rio de Mouro.
Mas a tal fada madrinha, ou bruxa má, continuava a fazer das suas e, o negócio
não resultou, por mais que ela se esforçasse para que ele corresse pelo melhor.
Decididamente a sorte não queria nada com ela!
A revolta aumentou e o desespero apareceu a fazer-lhe companhia, até que um dia
tomou conhecimento de uma instituição que se dedicava à formação profissional de
deficientes visuais. Em desespero de causa, dirigiu-se a ela na esperança de
poder dar rumo certo à sua vida. Desta vez a fada madrinha parece ter-se
antecipado à bruxa má, e a Cipriana Bartolomeu, pois é dela que estamos falando,
teve oportunidade de aprender uma profissão, a de operadora de computadores,
complementada com uma formação na área de telefonista/recepcionista.
Não foi sem dificuldades que a Cipriana conseguiu ultrapassar os obstáculos
apresentados pelo curso de informática. Vieram-lhe à memória, as frustrações
causadas pelo facto de não ter conseguido fazer as cadeiras práticas de
dactilografia, no curso de secretariado. Aprendia tudo o que fosse teórico, mas
no que dizia respeito à parte prática não desenvolvia trabalho nenhum, por mais
absurdo que nos parecesse, era a realidade dos factos.
Foi sentida a necessidade, por parte dos responsáveis desta instituição, de
separar a Cipriana do resto do grupo e entregá-la aos cuidados do António Manuel
Aveiro, sempre disponível. Este com a sua calma inesgotável aliada aos seus
conhecimentos de informática, fizeram o tão desejado milagre.
A parte final do seu curso, foi dividida entre algumas actividades na Associação
e um estágio de telefonista/recepcionista, no Instituto de Defesa do Consumidor,
onde já liberta dos seus receios, teve oportunidade de demonstrar as suas
verdadeiras capacidades.
A A.P.E.D.V., tem como missão não só a formação profissional dos deficientes
visuais, mas também a preocupação de os colocar no mercado normal de trabalho,
sempre que as condições o permitam. Foi o que aconteceu em relação à Cipriana.
Os responsáveis da Academia Internacional, tiveram conhecimento da nossa
instituição e, mais particularmente dos cursos de formação profissional que
promovemos , através da nossa revista «A Espiga». Após nos terem contactado, com
a expectativa de encontrarem a pessoa indicada para o lugar que pretendiam
preencher, foi-lhes indicado o nome da Cipriana Bartolomeu, devido ao facto de
ter tido um excelente aproveitamento. Após um período experimental, a Cipriana
foi integrada como funcionária na Academia Internacional, nos arredores de
Sintra, onde desempenha funções de telefonista cumulativamente com as de
operadora de computadores.
Como nos contos de fadas esta história teve um fim feliz, mas no entanto é de
lamentar que muitas outras o não tenham, só pelo facto de muitos de nós,
preferirmos o papel de Bruxa Má, ao da Fada Madrinha.
António Pedro Neves Costa
Lisboa, 24 de Maio de 1993
Actualmente, devido ao encerramento da Academia Internacional, a Cipriana
Bartolomeu é funcionária do Centro de Emprego de Sintra, onde desempenha a
contento a profissão de telefonista.

Um passe de magia
Com aspecto franzino, ar meio provinciano, mas dotado de uma energia
inesgotável, lá estava ele no meio dos colegas falando acerca das suas
expectativas em relação à informática. Não dava tréguas aos monitores, queria
mais, muito mais. A sua ânsia de aprender parecia infindável. Punha questões e
mais questões, algumas de resposta muito complexa, o que indiciava, por um lado,
alguma vontade de abanar o sistema e, por outro, deixava transparecer
conhecimentos até então não revelados.
Senti então a necessidade de ter uma conversa com a pessoa em causa onde, com
frontalidade, se analisasse o que de errado parecia haver naquela acção de
formação.
Fiquei então a saber que o Avelino, pois é dele que venho a falar, tinha desde
miúdo uma enorme vocação para tudo o que se relacionasse com a electrónica e,
desde que tinha tido conhecimento da existência da informática, se tinha
dedicado a ela de alma e coração.
Como autodidacta tinha adquirido conhecimentos que ultrapassavam em muito a
matéria constante do programa inicial do curso que estava a frequentar.
Fi-lo compreender que tinha que ter paciência, pois os colegas tinham
necessidade de passar por aquela fase de aprendizagem e ele poderia ser muito
útil, ajudando os colegas nas dificuldades que iam surgindo, ao mesmo tempo que
consolidava os seus conhecimentos.
Aceite a proposta por parte do Avelino, tornou-se este um colaborador
inexcedível, ajudando os colegas em tudo o que fosse preciso.
Em paralelo à programação normal do curso, criou-se para ele um programa onde
pôde desenvolver os conhecimentos que mais lhe interessavam, ou seja, a
programação. Aqui revelou uma capacidade que ultrapassou todas as expectativas,
e que só terminou na aprendizagem do Visual Basic.
No último ano de formação, dedicou-se também à exploração/investigação do
hardware, com resultados surpreendentes. Passados alguns meses, tinha-se tornado
um excelente técnico de informática.
Munido de conhecimentos, tanto na área do software como na do hardware, que
ultrapassavam em muito o de um simples utilizador, restava-nos a nós, A.P.E.D.V.,
arranjar-lhe um estágio credível onde ele pudesse desenvolver todos os
conhecimentos até então adquiridos.
Esta é a fase mais difícil para quem se dedica à formação profissional de
deficientes visuais, o arranjar um estágio!
Por isso a primeira fase do estágio do Avelino, foi passada dentro da
Associação, onde desenvolveu um trabalho exemplar. Recuperou todos os
computadores que já estavam ultrapassados, tornando-os ainda utilizáveis numa
primeira fase da aprendizagem.
Mas como era importante, para o estagiário, desenvolver trabalho fora da
Instituição, multiplicámos os contactos para colocarmos o Avelino Silva, num
estágio, em situação real de trabalho.
Recebemos por parte da IBM Portuguesa, resposta afirmativa e o Avelino lá foi
para estágio munido de toda a esperança do mundo.
Actualmente, o Avelino encontra-se a trabalhar na IBM, no departamento de Help
Desk, onde desenvolve uma actividade ao nível dos colegas normo-visuais.
Para a IBM Portuguesa o nosso muito obrigado, por ter tido a sensibilidade
suficiente, para abrir as portas a um deficiente visual dando-lhe uma
oportunidade.
António Pedro Neves Costa
Lisboa, 20 de Maio de 1999
A
experiência na IBM estava esgotada. Apesar da boa vontade dos responsáveis, não
havia alternativa, as normas internas da empresa assim o ditavam. Restava-lhe
aproveitar os muitos ensinamentos adquiridos e, recomeçar uma procura no mercado
de trabalho. Havia apenas uma certeza, tinha que ser na área informática. Nestes
momentos difíceis era frequente ouvi-lo dizer: “… se os outros mudam de emprego,
mas não de profissão! Será que os deficientes visuais não podem aspirar ao
mesmo? …”.
Munido de um Curriculum, já considerável, escreveu cartas e mais cartas para as
mais variadas empresas informáticas. Até que ouviu falar a um colaborador desta
casa, em regime de voluntariado, que iria ser criado um Instituto de Informática
pelo Ministério do Emprego e da Solidariedade. Sem perca de tempo, escreveu uma
carta ao Ministro Ferro Rodrigues, expondo a sua situação. Passado algum tempo,
recebeu a tão desejada resposta. Uma carta vinda do Instituto de Informática e
Estatística da Solidariedade, para se apresentar na morada indicada, acompanhado
do respectivo Curriculum, para uma Entrevista. Chegado ao local, foi informado
que o facto de ser deficiente, em nada iria alterar as normas internas. Teria
que se sujeitar, como os outros, a uma admissão baseada na análise do respectivo
Curriculum.
Actualmente, o Avelino Silva é funcionário do Instituto de Informática e
Estatística da Solidariedade. Desempenhando a sua actividade como técnico
informático no departamento de help desck.
Lisboa, 14 de Junho de 2000
António Pedro Neves Costa

Da refilice à maturidade
Quando começa um novo ano de formação, existe sempre por parte dos responsáveis
de qualquer dos sectores desta casa, uma enorme expectativa acerca dos novos
formandos.
como serão? O que os motiva? Será que irão corresponder às expectativas neles
depositadas?
Foi acompanhado dessas interrogações, que no já longínquo ano de 1991, entrei na
sala onde estavam os novos formandos do curso de informática.
De entre eles destacava-se uma rapariga pela sua irrequietude. Nervosamente
tagarela, procurava concentrar, na sua pessoa, todas as atenções, em flagrante
contraste com os colegas.
Com o decorrer da formação fui-me apercebendo, se bem que lentamente, do que
estava, realmente, encoberto por aquela agitação toda.
Quando se nasce cego, as dificuldades são realmente enormes. A "luta" começa em
casa, onde é preciso conquistar um espaço, demarcar um território, afirmar que
se tem capacidade para se ser autónomo, perante si e sobretudo perante os
outros. Depois vem a escola, onde a "luta" é ainda mais acesa. Mostrar primeiro
a si mesmo, depois ao professor e por último aos colegas, que em relação às
capacidades de aprendizagem, a cegueira não é limitativa. O problema reside
apenas na falta de material específico, ou seja, material transcrito para
Braille. Só assim se está em pé de igualdade com os demais colegas.
Esta "luta" que começa na primária, só termina no fim do secundário, se o cego
não quiser seguir uma formação universitária. Portanto, quando chega aos 18 ou
19 anos, já tem a acompanhá-lo uma carga de "desgaste", que normalmente, nas
pessoas ditas "normais", só aparece depois de inserida no mercado normal de
trabalho.
De posse destes elementos, lá fui orientando a formanda de forma a ajudá-la a
ultrapassar todos estes traumas.
No que dizia respeito à formação, não eram precisos cuidados especiais, visto
ela ter-se, desde cedo, revelado uma boa aluna.
Com o decorrer do tempo, deixou de ser competitiva, naquilo que a competição tem
de negativo, e tornou-se cooperante com os colegas.
Apesar de ter sido uma boa aluna na informática, a formanda revelou sempre uma
tendência para as "coisas" da comunicação, por isso e cumulativamente ao curso
de informática, fez um treino intensivo na central telefónica.
Terminado o curso, fez um estágio fora da Instituição, com um bom desempenho,
onde teve oportunidade de desenvolver os conhecimentos adquiridos.
Terminado o estágio, faltava uma colocação para que esta história terminasse
bem. A oportunidade surgiu, ao sabermos que iria haver um concurso público para
telefonistas, promovido pelo SMAS da Câmara Municipal de Cascais.
Concorreu a em pé de igualdade com os demais concorrentes e, chegados os
resultados estes não poderiam ter sido mais animadores. A formanda tinha ficado
em primeiro lugar.
Ultrapassado o período experimental, a Margarida Loup Magalhães, pois é ela a
protagonista desta história, tornou-se funcionária efectiva do SMAS de Cascais,
com as funções de telefonista.
António Pedro Neves Costa
Lisboa, 15 de Março de 1996