Do espanto à afirmação

Quando na passada semana, fui surpreendido com a visita de um antigo formando, que segundo as suas próprias palavras, já não via há cerca de dez anos, fui obrigado a recuar no tempo e, a buscar nas brumas da minha memória alguma referência que me situa-se em relação ao grupo a que ele tinha pertencido.

Fora, na realidade, um grupo com bastante qualidade. A maioria deles, até já estava colocada no mercado de trabalho, havia bastante tempo. Alguns, até já constam das histórias de sucesso que, tenho vindo a escrever, ao longo destes anos em que me enconto integrado nesta Instituição.

Recordámos, ambos, esses tempos e, as peripécias vividas então. Achei interessante, o facto de ele ter feito menção ao espanto que tinha revelado aquando da sua chegada a Lisboa. A grandiosidade da cidade, o seu enorme movimento, contrastando com a calmaria do seu pachorrento Alentejo, tinha-o feito abanar. Espanto esse, que iria ser o motor de grandes transformações na sua vida futura.

Não resistiu, lá muito bem, ao impacto causado pelos primeiros embates citadinos. A vida em Lisboa estava a ser devastadora para quem nunca tinha vivido nada assim. Tudo nele se transformava, a um ritmo alucinante. A começar o aspecto visual e terminando nas formas comportamentais. A primeira consequência disto reflectiu-se na formação, que tinha sido o principal objecto da sua vinda, até à grande cidade. Esta, estava a ser um verdadeiro desastre… O fascínio da noite, roubava-lhe as energias tão necessárias à aprendizagem. De tropeção em tropeção, lá ia desandando. Até que um grande vazio se foi instalando no seu íntimo, levando-o a pensar no seu passado recente. Esta atitude introspectiva fez com que o seu comportamento começasse a mudar. Lenta mas firmemente, o espaço das aulas passaram a ser um espaço de formação e não um espaço de recuperação de forças perdidas em deambulações nocturnas…

Reencontrada a estabilidade, a formação começou a correr com a maior das fluências. O que até então tinha parecido difícil, tornou-se fácil e, com a ajuda dos formadores e colegas, recuperou o tempo aparentemente perdido.

Após a formação efectuou um estágio na Deco (defesa do consumidor), onde ainda está hoje, mas como funcionário efectivo. Usa como ninguém, os bons resíduos visuais que ainda detém. Divide a sua vida profissional, entre a actividade de estafeta e a central telefónica, sempre que necessário.

Vencida a “barreira” da colocação no mercado de trabalho e, agora já com o direito de cidadania reforçado pelo acto de se ter transformado num cidadão pagador de impostos, como qualquer citadino “dito” normo-viwsual. Faltava agora complementar esta vitória, com algo que enriquece-se o espírito.

Aproveitando o convite de alguns colegas, começou a assistir aos treinos de alguns dos atletas deficientes visuais que, tão bem têm representado o nosso País nas competições, a nível internacional, para deficientes. Ficou de tal forma entusiasmado que, começou também a participar nos treinos. Com tal empenho que hoje faz parte da selecção nacional de atletas deficientes visuais e, já fez subir no mastro a bandeira das quinas por três vezes.

Se no princípio, se fez menção ao espanto causado pela grande cidade na mente do Mário Parulas, agora somos nós que ficamos espantados com os “brilharetes” por ele alcançados, quer na sua vida profissional, quer na sua vida pessoal.

António Pedro Neves Costa

Lisboa, 12 de Dezembro de 2003



 

Uma visita inesperada

Um dia destes deparei com uma pessoa “invadindo” o meu espaço de trabalho e, como seria natural, fiquei deveras surpreendido. Inquiri o que estava ali a fazer e ao que vinha. Uma voz atrapalhada respondeu-me: NÃO SE LEMBRA DE MIM? Eu sou o Nuno… Vinha à procura da minha companheira…

Quando de volta a casa, me veio ao pensamento este episódio, trazendo consigo inúmeras recordações de um tempo já distante. O grupo onde o Nuno tinha estado inserido. As peripécias que envolveram aquela acção de formação. Ao longo destes últimos anos tinha tido notícias de muitos deles… Como estavam a decorrer as situações de trabalho. Como estava a vida… De outros não tinha voltado a ter qualquer referência. Do Nuno apenas alguns rumores de tempos a tempos e, estes não eram muito “famosos”. Isto, realmente, não me surpreendia. Quem como ele tinha tido a vida altamente facilitada, não podia, decerto, perder tempo com coisas tão incómodas como crescer.

Durante a sua formação, revelava um poder de compra, pouco vulgar num cidadão que vivesse dos rendimentos do trabalho, quanto mais para uma pessoa que estava em situação de formação profissional. Quantas vezes, os pais e outros familiares, na tentativa de ajudar, só prejudicam. Impedindo assim os filhos de crescer e, se tornarem cidadãos de corpo inteiro. Era o que se passava nesta situação particular. Uma super-protecção familiar que, se revelava nefasta e, limitativa de um trabalho que estava a ser feito nesta casa, para que o Nuno se torna-se uma pessoa responsável e, economicamente independente.

Apesar das suas capacidades serem as melhores, não revelava nenhum interesse na formação. O que fazia era pouco menos que obrigado. O seu rendimento era mínimo. Só se revelava na central telefónica. Aí, estava como peixe na água. Comunicar era para ele tão natural que, nem se apercebia que a passagem pela central fazia parte, integrante, da sua formação na área da informática.

Mantinha com os colegas uma boa relação. Passavam as horas livres, numa sala, ouvindo programas de rádio gravados. Confesso aqui, a minha curiosidade pelo facto, de em vez de rádio, ouvirem gravações radiofónicas. Curiosidade essa, que só foi satisfeita, quando uma formanda apareceu junto de mim com uma cassete na mão, pedindo-me para a ouvir.

Satisfiz o pedido, logo que me foi possível. A surpresa não podia ter sido maior. Eram gravações de programas radiofónicos de uma Rádio local de Peniche, nos quais o locutor e animador era, nem mais nem mmenos, que o Nuno Borda-de-água. A voz era radiofónica e bem timbrada. O ritmo e a cadência eram os correctos. A selecção musical bem equilibrada.

Mostrei essa mesma gravação a outras pessoas da Instituição e, atrevi-me mesmo a propor um estágio para o Nuno, numa rádio. Era, à altura, um empreendimento quase “suicida”, o facto de se pretender pôr um cego a fazer programas de rádio, na grande cidade. O desafio foi aceite e, fizeram-se todas as de marches necessárias. Depois de várias tentativas, em vão, a Rádio Difusão Portuguesa, respondeu afirmativamente ao nosso pedido.

Mas como não se brinca em serviço, teve o nosso amigo que fazer uma aprendizagem no centro de formação da RDP, findo o qual, passou a fazer emissões de Rádio com regularidade, na Antena 3. Atingido o fim do período de estágio, foi convidado a fazer um contrato de trabalho com a Antena 3, sujeito a determinadas regras. Acho por bem não aceitar. A vida cómoda que continuavam a proporcionar-lhe, falava mais forte do que a concretização de um sonho e, do que uma independência económica.

Passados uns bons anos e muitas vicissitudes, o nosso amigo resolveu dar rumo à vida. Aproveitando os conhecimentos adquiridos na A.P.E.D.V. e a sua vocação natural para a comunicação, sujeitou-se a um concurso público, concorrendo para telefonista no Ministério da Segurança Social, onde ainda hoje se encontra como funcionário.

Diz o povo: tudo está bem quando acaba bem. Este provérbio aplica-se que “nem uma luva” a história do Nuno. Mas será que só se pode aprender com os nossos próprios erros? Será que não se pode aprender com os erros alheios? Decerto, seria uma forma bem menos dolorosa de aprender…

António Pedro Neves Costa

Lisboa, 12 de Dezembro de 2003

 

 

Um dedo que vale um milhão

A primeira vez que tive oportunidade de contactar com ele, já no longínquo ano de 1990, foi quando o ouvi dizer, na recepção desta casa, que estava na A.P.E.D.V., para fazer um curso de informática, fiquei deveras surpreendido. Como poderia uma pessoa sem uma mão e a outra reduzida a um dedo e a metade de um outro, falar em informática? Não que eu duvida-se das suas capacidades intelectuais. Nem sequer o conhecia, para poder fazer um juízo de valor. O problema punha-se na inexistência das condições físicas objectivas. As mãos eram para mim, vitais para um bom domínio do teclado. Achei, mesmo, que as pessoas responsáveis pela sua admissão para o curso, não tinham ponderado bem aquele caso e, que ele só poderia sair bastante afectado de toda aquela situação. Companheiros de curso, fomos contactando mais amiúde. Os primeiros dias foram de integração, tanto na Instituição como no curso. Começado propriamente o trabalho, o nosso amigo começou a revelar-se “barra” nas aulas teóricas. Então, lá dava comigo novamente a pensar, quando chegar às aulas práticas é que eu quero ver…! Até que o dia de todas as decisões, achava eu, chegou. Tive, então, oportunidade de reparar que não eram só minhas as dúvidas, precipitadas, acrescento eu agora, acerca do colega. Todo o grupo as tinha, inclusive alguns dos formadores.

Se alguma vez fiquei mal comigo próprio, o “dia de todas as decisões”, foi um deles. O Felisberto de Melo, com toda a calma do mundo, sentou-se perante o computador e, percorreu o teclado com o que lhe restava da mão, interiorizando o posicionamento das teclas e na segunda aula já conseguia digitar, lentamente, mas com alguma segurança. Utilizava para tal o único dedo que lhe restava. A sua forma de se referenciar em relação ao posicionamento das teclas, era, para mim, inovadora, mas para ele determinante. Havia apenas um problema: como activar um comando para o qual houvesse a necessidade de conjugar várias teclas em simultâneo. Este particular foi rapidamente resolvido pelo responsável do curso, com a aquisição de uma aplicação específica para tal. Esse programa foi mandado vir de Inglaterra e, foi, na altura, uma inovação na reabilitação profissional no nosso País.

A nossa relação foi-se estreitando com o decorrer do tempo. Fiquei a saber que o seu estado se devia a um acidente com um morteiro. Daqueles que servem nas nossas aldeias, para a alvorada nos dias de festa. Tinha sido encontrado pelo pai numa das propriedades da família e, tinha sido guardado, com indicações precisas, para que ninguém lhe toca-se. Mas como, lume ao pé da estopa… o Felisberto, um dia, não resistiu à tentação e foi buscar o morteiro, para o fazer explodir no quintal. Escusado será dizer, que o fez explodir nas próprias mãos. Admirado para a cama de um Hospital de Aveiro, cego, com a audição reduzida num dos ouvidos, as mãos no estado já descrito e com o futuro, aparentemente, hipotecado.

A recuperação, no Centro de Reabilitação do Alcoitão, foi longa, bastante longa, para quem tinha pressa de recomeçar. O facto de se encontrar naquela situação, não lhe tinha retirado em nada, a vontade de fazer coisas. Aliás, como sempre tinha acontecido até então. De volta à sua aldeia, recomeçou os estudos que, só foram interrompidos no 10º ano, para ingressar na A.P.E.D.V.

• Mas como ia dizendo, antes de abordar as causas e as consequências do acidente, O Felisberto revelou-se um dos melhores formandos do seu curso. Não aparentava qualquer problema, tanto na parte teórica como na parte prática. Chegado ao último ano do mesmo, resolveu, de novo, dar uma reviravolta na sua vida. Iria regressar a são João de Loure, para completar o Ensino Secundário. Mais uma vez deixava alguma coisa por terminar! Seria instabilidade ou sina? Só o futuro o poderia dizer… Terminado o 12º Ano, regressou de novo a Lisboa, desta vez para cursar História, na Universidade Nova de Lisboa. Tomou-lhe o gosto, porque terminado o curso de História, deitou mãos à obra e tirou um outro. Actualmente, o Felisberto está a fazer as pedagógicas, para se dedicar ao ensino.

Poderão achar estranho, da minha parte, escrever uma história acerca de uma pessoa que ainda não está colocada no mercado de trabalho. Pois não é este o fim último desta casa? Certamente que sim! Mas não só, acrescento eu. Porquê? Porque permitiu a uma pessoa como o Felisberto•, uma mais valia informática, que sem a qual não teria tido oportunidade de efectuar um curso superior. Agora, munido de outras armas, tem muito mais probabilidades de poder singrar no mercado de trabalho.

A passagem por esta Instituição foi determinante para o encaminhamento de um caso que de outra forma seria de muito difícil resolução. Convém acrescentar que, mais uma vez, a A.P.E.D.V. foi pioneira ao ter admitido no seu seio, uma pessoa que dificilmente seria aceite numa outra Instituição. PARA MIM, FICou A LIÇÃO QUE, em circunstância alguma, SE DEVEM FAZER JUÍZOS PRECIPITADOS, mesmo quando os indícios nos surgem claros como a água.


António Pedro Neves Costa

Lisboa, 22 de Outubro de 2003
 

Araponga… Pois com certeza!

De corpo franzino, escondido por detrás de uns óculos, com lentes garrafais, desajeitado no andar e com uma personalidade aparentemente frágil, lá andava ele numa luta incessante, para que o deixassem trabalhar com as máquinas. Já tinha aprendido a montar e a empalhar os bancos e as cadeiras. Agora o importante, para ele, era trabalhar com as máquinas. Achava que pelo facto de, por parte dos formadores das oficinas, haver alguma reserva em o pôr a funcionar com as máquinas, era uma atitude discriminatória. Parecia não querer perceber que, essas reservas, se deviam a uma atitude de prudência perante a sua doença.

Ultrapassados os legítimos receios dos formadores, após uma conveniente observação, à sua forma de lidar com a doença, deram-lhe, então, uma oportunidade para trabalhar com as, tão desejadas, máquinas. O resultado não podia ter sido mais surpreendente! Agora, era vê-lo, respirando confiança por todos os poros. Dedicava-se à aprendizagem de corpo e alma. O seu ar provinciano até parecia ter-se transformado num ar sonhador. Mesmo os colegas, que até então, tinham feito dele uma espécie de “bobo da corte”, devido ao facto de ser uma personalidade apagada, começaram a olhá-lo de maneira diferente. Até a alcunha “Araponga”, por eles posta ao Joaquim Gomes, suava agora de forma mais suave.

Ultrapassadas algumas dificuldades inerentes a qualquer pessoa que, não se consegue adequar convenientemente à vida citadina, tudo corria pelo melhor. Concluído o curso e o respectivo estágio, efectuado nas próprias instalações da Instituição, o nosso amigo só queria “ver” o caminho da terra. Chegado à mesma e, depois de ter morto todas as saudades, que eram muitas, começou a sentir um bichinho a moer-lhe por dentro. Parecia que uma inquietude se estava a instalar no seu espírito: (…O que seria aquilo? Seriam saudades de Lisboa? Decerto que não! Sempre tinha ambicionado o regresso à terra. Portanto, não podia ser nada disso...) Depois de muito matutar descobriu finalmente, o que o atormentava. Era o tédio! Estava, havia bastante tempo, sem fazer nada. Era preciso agir depressa: (…Mas fazer o que? Não sabia fazer mais nada para além do que tinha aprendido na Instituição. Voltar a Lisboa? Isso… Isso, estava fora de questão!...). O nosso amigo nunca se tinha visto perante uma confusão daquelas.

Mas, como geralmente acontece, são nos momentos mais difíceis que os grandes homens se revelam: (… Tinha lutado tanto, para conseguir um curso de madeiras/artesanato na A.P.E.D.V., porquê não o pôr em prática? ERA isso…! Iria tentar ser artesão e, trabalhar por conta própria!...) Se pensou com rapidez, mais rapidamente lançou mãos à obra.

De posse dos contactos para poder comprar os materiais necessários à feitura dos bancos e cadeiras, lançou-se ao trabalho. Levantou-se-lhe, entretanto, no espírito uma nova dúvida: (…Quem compraria o material produzido?...) Numa primeira fase o problema foi resolvido rapidamente. Os vizinhos encarregaram-se da compra. Mas com a continuação da produção teria que haver outras fontes de escoamento. Foi então que alguém lhe falou, que iria haver uma feira de artesanato na vila. Rapidamente, se dirigiu à Câmara Municipal e, com surpresa, verificou que esta lhe concedeu um espaço, no recinto dedicado à feira, para poder vender o material disponível. Vencida mais esta fase, era preciso pensar em termos de futuro. Lembrou-se, então, do irmão mais novo que estava desempregado. (…Sem dúvida, que seria uma boa oportunidade para ambos…). Depois de uma breve conversa, decidiram que fariam uma parceria. Um fabricava o material, o outro encarregava-se de o vender nas feiras de artesanato. Compraram uma carrinha em segunda mão e lançaram-se à execução prática do projecto.

Já com família constituída, o Joaquim Gomes, lá continua para as bandas de Penalva do Castelo, a fazer e a vender, com pleno êxito, os seus materiais de artesanato, com a ajuda da companheira e do irmão.

A mim, só me resta para concluir estas linhas acrescentar que “querer é poder” e, quantas vezes situações que, à partida, parecem votadas ao fracasso, depois de convenientemente trabalhadas, se transformam em casos de sucesso.


António Pedro Neves costa

Lisboa, 16 de Setembro de 1999

 

Geração "rasca"

Quantas vezes, sem sabermos bem o porquê, deparamos connosco a fazer uma análise retrospectiva, acerca de alguma situação que nos tenha impressionado. Confesso mesmo, a surpresa com que fico, quando passados anos a visão com que tinha ficado desse mesmo assunto, surge agora totalmente alterada.

Numa dessas situações, ou estado de espírito, dei comigo a pensar na pessoa com quem contactei na minha primeira visita à A.P.E.D.V.. Jovem, desenvolta, mostrando entusiasmo quando falava acerca das actividades que eram desenvolvidas na Instituição. Tinha a capacidade de passar aos outros o seu entusiasmo, levando-os a interiorizar que: se muitos já tinham conseguido alcançar os objectivos a que se propuseram, aqueles que chegavam agora também o conseguiriam. Pela parte que me toca, sai reconfortado e, crente de que tinha que agarrar, com ambas as mãos, aquela oportunidade.

Quando de volta à Instituição, agora para frequentar o tão desejado curso, tive a oportunidade de observar, com mais detalhe, a sua forma de actuar. Mantinha a mesma postura que tinha demonstrado a quando da minha visita inicial. Andava numa roda-viva, sempre solícita e atarefada. Confesso mesmo, que tinha alguma dificuldade em compreender quais eram, de facto, as suas obrigações profissionais: Secretariava o Director. Participava na organização dos cursos de formação. Dava uma “mãozinha” no refeitório, quando necessário. Colaborava estreitamente com a Técnica de Serviço Social. Ajudava os formandos no que fosse preciso. Mas com o decorrer do tempo, tive a oportunidade de constatar que: “quem tantos burros toca, alguns deixa para trás”. Agora, interrogo-me de quem seria a culpa? Mas… seria mesmo alguém responsável…? Situações desta natureza são frequentes nas IPSc, devido à falta de verbas, necessárias à contratação de pessoal. O resultado de situações deste tipo é deixar os funcionários extenuados e, com grandes frustrações por não conseguirem acudir a todas as solicitações. Bom, o melhor é deixar-me deste tipo de considerações e, voltar à “geração rasca”. Tempos depois, fiquei a saber que cumulativamente à sua actividade profissional, a pessoa em causa, ainda arranjava forças para estudar à noite, tirando um curso superior.

Actualmente, munida da experiência feita do saber fazer, adquirido na prática é, do saber saber adquirido na Faculdade, a Graça Hidalgo coordena os cursos de formação profissional da A.P.E.D.V., não tendo deixado, muito antes pelo contrário, de prestar a sua prestimável colaboração nas outras áreas quando solicitada.

Quando se ouviu, repetidamente, durante vários anos por parte de um alto responsável governamental deste país, que a geração jovem, de então, era tão má, que só poderia ser apelidada como a “geração rasca”, sou forçado a interrogar-me: Será que a pessoa em causa nestas linhas, seria a excepção à regra? Ou será, que alguns dos políticos que, a altura, constituiriam eles próprios uma “geração rasca”. Feitos à imagem e semelhança dum tal Conselheiro Acácio?

António Pedro Neves costa

Lisboa, 12 de Julho de 1998

 

 

Uma experiência terceiro mundista

Certa manhã enquanto organizava mais uma aula, o telefone tocou. Era o Director da Instituição a pedir-me que chegasse à sua sala, pois tinha um desafio a fazer-me. Pedi-lhe uns minutos para terminar o que fazia e, enquanto terminava ia pensando no telefonema. Um desafio? Que espécie de desafio seria? Optei por esquecer o telefonema e concentrar-me no trabalho. Teria tempo para o saber!

Confesso agora, que mais que um desafio, o que o Dr. Assis Milton me pediu me deixou perplexo. Estaria eu disposto a fazer a formação informática de um deputado Moçambicano? Aleguei que nós nos dedicávamos à formação de pessoas cegas. Portanto, não seríamos nós as pessoas indicadas a fazer semelhante formação. A resposta atingiu-me em cheio: Quem te disse que a pessoa em causa não é cega!... Convém aqui fazer uma ressalva. Não ponho, nem nunca pus em causa as capacidades de uma pessoa cega, quando devidamente preparada. O problema tinha outra origem. Eu, cidadão português, integrado no espaço da União Europeia, tenho constatado, no dia-a-dia, as dificuldades com que nos debatemos, para colocarmos uma pessoa deficiente visual no mercado normal de trabalho. Os obstáculos são de toda a ordem… PENSO AGORA QUE COMPREENDERÃO MELHOR A MINHA PERPLEXIDADE! O exemplo vinha de um País QUE ESTAMOS HABITUADOS A CONSIDERAR COMO terceiro mundista. Aceitei o desafio, depois de termos acordado a forma como a formação iria ser feita. Era importante que a mesma não colidisse com as horas da formação convencional que, se pratica, no dia-a-dia, desta casa. Aguardei expectante o início do trabalho com o Dr. Isaú Meneses.

O primeiro contacto foi determinante para o sucesso da formação. Deparei com uma pessoa simples, afável e discreta. O facto de ser um Quadro Superior no seu País e, exercer actualmente, o cargo de Deputado, não o fazia achar-se superior aos outros. O mando é sempre temporário… Estas palavras são da autoria do próprio Isaú. Numa primeira conversa fiquei inteirado das necessidades do Isaú, o que facilitou a planificação da formação. Quando fazemos este tipo de acções, o conhecimento dos objectivos a atingir por parte do formando, torna tufo mais fácil. Apesar da duração ser bastante limitada, em relação ao tempo, o curso correu de forma bastante positiva. Permitindo mesmo a aprendizagem de algumas matérias que à partida não estavam contempladas.

De novo em Moçambique, o Isaú Meneses continua a desempenhar as suas funções, agora com mais independência, graças ao conjunto de conhecimentos adquiridos na área informática.

Mas como tudo tem uma origem, convém aqui fazer uma referência, embora breve, acerca das origens do Isaú Meneses. Nasceu em Moçambique, perto da Cidade da Beira, de uma família humilde e, com acontece a muitos miúdos em África, um problema nos olhos condenou-o à cegueira. Teve a sorte de ter ido parar ao Instituto Assis Milton na cidade da Beira, que à altura acolhia os miúdos com problemas de olhos, Garantindo-lhes uma escolaridade mínima. Aqueles que não tinham condições para estudar era-lhes proporcionado formação profissional. O Isaú foi um dos que depois de ter efectuado a 4ª classe, conseguiu integrar-se no ensino oficial. Acabado o ensino secundário rumou a Lisboa, com uma bolsa atribuída pelo Estado português, onde fez um curso superior. Terminados os estudos, voltou a Moçambique onde começou a desenvolver a sua actividade profissional, sem nunca ter deixado de lutar pela integração dos deficientes visuais da sua terra. Como exemplo disso, basta lembrar que foi Presidente da ACAMO (Associação de cegos e amblíopes de Moçambique). Cargo que exerceu graciosamente, em regime de voluntariado.

António Pedro Neves Costa

Lisboa, 27 de Junho de 2002

 

Uma firme certeza

Passada a surpresa dos primeiros tempos da minha estadia na A.P.E.D.V., à qual já me referi num outro texto, comecei a observar, mais atentamente, a população alvo a que os cursos se destinavam.

De entre eles, reparei num jovem, que se destacava da maioria, pela forma desenvolta como falava e a forma ágil como se movimentava. Tempos depois fiquei a saber que estava no curso de artesanato. Achei estranho, pois parecia-me que uma pessoa com aquelas capacidades poderia estar, sem dificuldade alguma, num outro curso. Era, há altura, um indivíduo irreverente, bom conversador, amigo de conviver, em suma: um “bom vivan”. Parecia, mesmo, não ter acusado o toque negativo, com que a vida o tinha presenteado. Este último aspecto era o que mais me impressionava. Como é que na flor da idade se pode aceitar uma sentença de cegueira, sem revolta, ou melhor: canalizar as forças negativas que a alimentariam, para forças positivas que propiciaram a recuperação em toda a sua plenitude.

Acabado o curso e esgotadas todas as tentativas para pôr o Hélder Castro em estágio, restava-lhe apenas como solução, efectuar um outro curso numa outra Instituição que, se dedica-se à formação profissional. Mas como a sorte não é igual para todos, o nosso amigo, por mais que se esforça-se, não conseguia dar a volta à sua vida, sob o aspecto profissional, ou melhor: Não aparecia um estágio, quanto mais um emprego!

Os anos foram passando e o Hélder como se de um filho pródigo se tratasse regressou à sua casa de origem. Não vou referir-me ao percurso efectuado por ele fora da A.P.E.D.V.. Os motivos são por demais evidentes.

De novo na nossa Instituição e, inscrito num curso mais compatível com as suas capacidades, O Hélder, mais uma vez, arregaçou as mangas e dispôs-se a dar a volta ao “texto”.

Novamente revelou todas as suas potencialidades no que se refere à aprendizagem. Agora com outra maturidade, tornou-se um elemento dinamizador em relação aos colegas. Incentivava-os no que dizia respeito à aprendizagem, ajudava-os sempre que possível, mas não contemporizava quando lhe apareciam com histórias do “coitadinho”. Neste particular, era realmente implacável.

Mas como o mundo não para, o fim da formação aproximava-se do fim. Mais uma vez surgia o “fantasma” do estágio. Apareceria alguma coisa de jeito? Seria desta que a sua vida, sob o ponto de vista profissional, iria tomar rumo? Mas como o diabo não está sempre atrás da porta, o tão desejado estágio apareceu. Estagiar como telefonista na REN (Rede Eléctrica Nacional).

Cheio de legitimas interrogações, acerca do futuro, o Hélder lá foi tomar contacto com o lugar. Em boa hora, acrescento eu, pois integrou-se de tal maneira que pouco tempo depois, dominava o serviço com total a vontade.

Como a persistência é por vezes premiada, o Hélder é hoje em dia funcionário da REN. Responsável no serviço, mas continuando a ser um “bom vivan” no que diz respeito à sua vida social.

António Pedro Neves Costa

Lisboa, 27 de Fevereiro de 2000

 


Objectivos bem determinados
Quem teve a oportunidade de conhecer algumas das ilhas do Arquipélago Açoriano, decerto, pode constatar que os seus primeiros colonos tiveram de fazer um esforço inaudito, para poder moldar a natureza de forma a tornar essas mesmas ilhas habitáveis. Essa semente que foi então lançada à terra foi tão profícua que, ainda hoje os seus descendentes são talhados com a mesma têmpera.
Foi a mesma impressão com que fiquei ao ter conhecido o protagonista deste texto. Parecia a conjugação perfeita de um conjunto de factores naturais. Talhado pelas violentas vagas que muitas vezes açoitam as costas Açorianas que, ajudadas por um fino sinzel finamente manejado pelos ventos bravios, produziu um ser ao mesmo tempo tenaz e delicado.

Formando de poucas palavras e muito pouco dado a brincadeiras, ocupava o seu tempo entre as aulas e o estudo da matéria ministrada. Era possuidor, à partida, de sólidos conhecimentos no âmbito do português e do latim. Esse particular, ajudou-o bastante, na área da informática, por ele eleita como prioritária: os processadores de texto. Não obstante, revelou-se atento e aplicado no reste das matérias que componham o curso. Se alguém tivesse tido como único horizonte uma meta a atingir, o João Carlos Lindo, foi uma dessas pessoas. Chegou ao Continente para fazer um curso de formação profissional, que o ajudasse a ultrapassar a deficiência com que tinha nascido, uma redução visual tão acentuada que, o punha na esfera dos amblíopes e só descançou depois de o ter terminado, com a certeza que iria regressar aos Açores, para efectuar um estágio.

De novo integrado no seu meio natural e, já munido das ferramentas necessárias ao seu objectivo primordial: o tornar-se um ser humano economicamente independente e, útil à sua comunidade, soltou as velas ao vento e dispôs-se a enfrentar todas as dificuldades que esta nova viagem lhe iria trazer. Foi integrado, como estagiário, na equipa de produção de material de apoio da sua região. A sua missão era passar para Braille, utilizando processos informáticos, todo o material necessário aos alunos deficientes visuais. Desempenhou esta actividade com tal eficácia que, hoje está inserido no grupo de trabalho como funcionário efectivo.

O João Carlos navega, hoje em dia, com as velas a todo o pano, sulcando as águas, ora calmas ora revoltas, do mar da sua vida, com total mestria. Qual, elegante mas robusto veleiro, habituado a progredir pelos mais variados tipos de águas e contornar costas cheias de escolhos com total êxito.

Lisboa, 14 de Janeiro de 1997

António Pedro Neves Costa

 

Quando se tem a Fé como Norte…

Quantas vezes, ao longo da nossa vida, pensamos que esta só reserva surpresas desagradáveis aos outros. Parece-me que é uma constante na maioria de todos nós; até que, quando as tais surpresas desagradáveis nos batem à porta, batem de mansinho, tão de mansinho que, ao princípio, nem queremos acreditar no que nos está a acontecer. Achamos que é apenas um incómodo passageiro e, que tudo voltará, em breve à normalidade. Só com o passar do tempo e com o agravar da situação nos vamos consciencializando da dura realidade.

Foi o que aconteceu a uma formanda que, pela sua postura, me marcou pela positiva. Após ter efectuado a escolaridade com êxito, entrou com facilidade no mercado normal de trabalho. Era uma funcionária exemplar. Tinha a seu cargo todo o trabalho do escritório da empresa, incluindo a contabilidade do mesmo. Profissional bem integrada, faltava agora pensar nas outras coisas que completam e reforçam a essência da nossa existência. Foi nesta fase da vida, que o destino resolveu baralhar tudo e, testar até ao limiar da exaustão, a resistência e a capacidade de sofrimento da pessoa em causa. Uma doença silenciosa e traiçoeira começava a “minar-lhe” o corpo, deixando marcas irremediáveis para o futuro.
Com efeito, só quando os olhos se começaram a ressentir, ou seja, a não corresponder convenientemente, para o fim a que se destinavam, o pânico se instalou. De médico em médico, numa busca incessante para que o diagnóstico pudesse ser efectuado com precisão, foi uma luta tenaz, até que ele chegou brutal e definitivo. Diabetes!…
Passados os primeiros momentos, em que o mundo pareceu desabar sobre os ombros, surgiu, também muito de devagarinho, mas com grande firmeza uma força inquebrantável para ultrapassar a situação. Já era sabido que a cegueira era inevitável. Era apenas uma questão de tempo. Portanto, havia que encontrar a forma mais apropriada para ultrapassar esta nova situação. O Centro de reabilitação de Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa, era o primeiro passo a ser dado. A espera foi dolorosa, para quem tinha pressa de recomeçar uma vida activa e independente. Esta foi tão longa, que a doença teve oportunidade de continuar a sua “destruição” implacável. Os rins foram afectados e, houve a necessidade de recorrer à hemodiálise. Mas quando se tem uma fé inquebrantável, nunca se desiste… As adversidades são, tão somente, transformadas em forças.

Vencida a fase da reabilitação, era agora necessário vencer a fase da formação profissional. Inscreveu-se no curso de informática da A.P.E.D.V., que frequentou com êxito. Teve aqui a oportunidade de conjugar o saber adquirido durante a sua actividade profissional, com os conhecimentos informáticos que lhe foram ministrados na Instituição. Foram 3 anos de aprendizagem frutuosa que, culminaram num estágio de telefonista na Câmara de Olhão. Findo o mesmo, não ficou na organização como funcionária, apenas devido à inexistência de verba para tal.
Abro aqui um parêntese para acrescentar, que a Célia durante a frequência do curso, teve oportunidade de realizar um dos seus grandes desejos. Voltar a ser independente da máquina de hemodiálise… Esperava havia bastante tempo por um rim que fosse compatível, para um transplante. O tão almejado momento chegou durante umas curtas férias no Algarve. Uma inesperada comunicação telefónica, avisou-a para estar no Hospital da Cruz Vermelha, no dia seguinte. Ainda me lembro do telefonema, nervoso, que ela efectuou para me avisar que, o grande momento estava eminente. Acompanhada pela sua grande fé, lá foi rumo à sua mais desejada aventura. Em boa hora, acrescento eu, pois o transplante foi e, continua a ser, um êxito.

Actualmente, a Célia Marcelino, é funcionária na Escola C+S em Olhão, exercendo a profissão de telefonista, com total eficácia. Os duros anos de luta que mediaram entre o aparecimento da doença e o voltar ao trabalho, como pessoa independente, permitiram-lhe começar a realizar as tais outras coisas que, completam e reforçam a essência da nossa vida.

Lisboa, 6 de Dezembro de 1998

António Pedro Neves Costa
 

 

HISTÓRIAS DE SUCESSO